JornalQ2 - Inês Coutinho entrevista BOTA

A BOTA nasceu como parte da Toca das Artes, podem contar um pouco sobre a ideia inicial para este espaço, e em que contexto surge?
A BOTA é um espaço cultural polivalente, localizado no centro de Lisboa, que acolhe artistas emergentes e consagrados, com uma programação regular que inclui teatro, música, exposições, oficinas, conversas e residências artísticas. Ao longo dos últimos cinco anos, a BOTA tem-se afirmado como um centro de experimentação, criação e convivência, valorizando a multiplicidade de vozes, práticas e estéticas. O projecto artístico da BOTA é amplamente diverso e não se fixa em géneros, estilos ou formatos específicos. A programação é construída a partir das propostas de dezenas de artistas que procuram a BOTA pelas suas características únicas, localização e ambiente acolhedor. A versatilidade do espaço permite acolher uma grande variedade de atividades: performances teatrais, concertos, exposições, tertúlias, oficinas, programação infantil, residências artísticas e encontros comunitários.
Que desafios práticos enfrentam para manter a BOTA a funcionar, especialmente num modelo DIY e como a comunidade local e artística tem contribuído para a sustentabilidade e para a vida do espaço?”
A BOTA acolhe artistas emergentes que procuram afirmar-se em Lisboa e artistas de renome nacional e internacional que privilegiam espaços intimistas e com envolvimento comunitário. É nossa preocupação que toda a actividade artística da BOTA esteja profundamente ligada ao território e à sua comunidade, oferecendo uma programação acessível, inclusiva e que estimule a participação de diferentes públicos. A estrutura de gestão da BOTA garante o funcionamento regular do espaço, sustentado por uma equipa dedicada, composta por profissionais das áreas de produção, técnica, programação, comunicação e administração. Esta organização permite planeamento contínuo, relações institucionais sólidas e ações recorrentes de captação de recursos. Procuramos com esta forma de funcionamento um compromisso da BOTA com a dignificação do trabalho artístico e com a criação de condições justas para artistas, equipas técnicas e de produção. Ao mesmo tempo, a equipa tem vindo a desenvolver projetos autorais com financiamento pontual, fruto do crescimento orgânico da BOTA enquanto estrutura cultural de referência.
Para além da sala de espectáculos, na BOTA há gabinetes de trabalho para artistas de várias áreas. Que tipos de projetos habitam esses espaços? Existe colaboração entre eles?
Actualmente, o espaço conta com residentes permanentes, como o artista plástico Ozearv, a produtora audiovisual Somtopia Films e os estúdios de gravação BOTA, integrados na dinâmica quotidiana da casa.
Com uma programação tão rica, ficamos genuinamente curiosas de como conseguem fazer este puzzle entre oficinas, concertos e mais?
A nossa programação é internamente deliberada, a partir das inúmeras propostas que recebemos. Temos a sorte de ter uma equipa pequena mas muito versátil, desde a programação até aos materiais de divulgação, manutenção do site e animação das redes sociais.
Quais são os vossos sonhos para o futuro da BOTA e, já agora, o que sonham também para a cultura e o associativismo em Lisboa?
Sonhar em si é também um propósito e sinceramente achamos que já vivemos alguns dos nossos sonhos através da BOTA: temos trabalhado com pessoas extraordinárias, foram criados laços entre artistas, alguns do mesmo país e até da mesma cidade que não se conheciam e passaram a trabalhar juntos. Temos tido a sorte de ter na BOTA um pedacinho do mundo, em toda a sua riqueza e diversidade, traduzido em momentos notáveis a que pudemos assistir. O que gostaríamos no futuro para além de dar continuidade ao trabalho que fazemos era desenvolver e levar definitivamente para fora do nosso espaço físico projectos como o “BOTA FORA”, a Arroios Blues Week e a semana da Música do Mundo da BOTA (WMW). O movimento associativo da cidade de Lisboa precisa de ver garantido o direito ao seu espaço na cidade, estar ligado territorialmente a cada zona onde nasceu e cresceu e que a sua actividade seja não só assegurada como estimulada. O movimento associativo é uma das formas mais democráticas e plurais de acesso à criação e fruição culturais, tem em si uma capacidade simultâneamente agregadora e um potencial de combate ao racismo e à xenofobia únicos. É dever das instituições públicas, poder local e governo assegurar que estas possam funcionar em pleno, crescer e ligar-se a cada vez mais gente e poder assim sonhar e transformar. Quantos de nós puderam começar a sonhar como artistas, profissionais ou não através da sua participação no movimento associativo.