Jornal Q2 - Som, Corpo, Conhecimento e Presença por Mandacaru

«O problema hoje em dia do ser humano é que a nossa subjetividade nunca ganha sentido.
O sujeito está sempre cindido, sempre dividido, sente sempre que lhe falta alguma coisa.
Uma pessoa pode passar anos na terapia a resolver isso. Ou tornar-se raver.»
McKenzie Wark in Raving, 2025, p. 65.
McKenzie Wark, em Raving, problematiza a falta de sentido subjetivo na individualidade contemporânea – vivemos em permanente fragmentação, nunca na sua inteireza. Pode-se sempre tentar trabalhar isso em terapia, ou podemo-nos tornar ravers. Gostaria de trazer alguma reflexão sobre esta citação em particular, uma reflexão urgente num momento em que a vida noturna lisboeta enfrenta o encerramento de espaços e a constante ameaça policial sobre tudo o que se afasta da norma branca, masculina e heteronormativa e após mais umas eleições fracassadas.
A recente edição de Raving pela Orfeu Negro vem reforçar a necessidade de uma consciência social e cultural sobre o que a club culture representa e reforçar também a esperança para que esta consciencialização se expanda. Persistem, porém, preconceitos em torno da pista de dança, frequentemente vista como um fenómeno artístico secundário que não concebe mais nada do que a sua funcionalidade que, à primeira vista, permite vislumbrar: ocasião para dançar. Esse olhar externo arruma a pista de dança e a sua música enquanto fenómeno secundário e é esse desprezo artístico que, entre outras coisas, mantém um discurso que insiste em relegar a cultura noturna a um reduto de marginalização, projetando nela o que entende como o «desconhecido» e o «perigoso». Wark oferece-nos, contudo, uma alternativa: responder à falta de sentido com a rave, lugar onde o corpo reencontra a presença, para de dentro dela reconectarmos a multiplicidade de sentidos que pode tomar.
Noutro ponto desta reflexão, Hans Ulrich Gumbrecht, em Produção de Presença – o que o sentido não consegue transmitir (2010) ajuda a compreender este gesto ao propor o conceito de presença como contraponto à obsessão moderna pelo sentido. A cultura ocidental construiu-se sobre a ideia de que o mundo existe para ser interpretado, revelado, explicado — uma herança colonial e científica que separou o sujeito eurocentrado do mundo. Gumbrecht sugere o contrário: numa cultura de presença, o corpo é a nossa forma de estar-no-mundo, e basta-se enquanto tal. Assim, à fragmentação do eu que Wark identifica, a rave responde com a experiência da presença: o corpo e o som fundem-se num mesmo acontecimento. A pista de dança torna-se uma cosmologia onde a corporalidade lhe é inerente, e não colocada como externa — encapsulada no conceito de «vibe», a «epifania» da rave é sensorial, e, por isso, incompreendida por um olhar normativo cuja autorreferência continua a ser a mente. Todo o significado que advém da rave é um sentido atribuído após a experiência, e nunca antes, ou de fora dela.
Mais do que fuga ou alienação, a rave é uma forma de conhecimento — um saber do corpo que escapa à linguagem, mas que produz comunidade e consciência. Talvez o «tornar-se raver» seja exatamente isso: reconciliar-se com a presença, encontrar um sentido que não seja fundado na mente, mas no corpo e na experiência. Pode parecer contraditório, mas talvez seja essa mesma contradição que mantém os corpos em ressonância e movimento.