Jornal Q2 - Sionismo Psicadélico por marum

Jornal Q2 - Sionismo Psicadélico por marum

23.01.2026
Jornal Q2 - Sionismo Psicadélico por marum

É a música psytrance intrinsecamente sionista?

Com um humor sarcástico, um amigo fez uma crítica à “natureza fascista” do psytrance, mencionando o peso desproporcionado de Israel nessa scene, com festivais onde abundam soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF). Poderia (e deveria!) ter ignorado esta provocação, mas inevitavelmente fez-me pensar: será que um género musical pode ter um ethos ideológico? Techno is Black music, como somos frequentemente lembrades, e bem. A história não se pode ignorar, mas será que as origens de um género musical lhe conferem um caráter, uma ideologia ou princípios éticos inerentes? “Deixem a política fora da música!”, ouvimos dizer sempre que se quer repelir críticas e ignorar as as relações entre a música e os movimentos sociais e culturais que estão nas origens da música, e que moldam a forma como é produzida, distribuída e ouvida. 

O psytrance não é exceção. O género nasceu em Goa, antiga colónia portuguesa que, nos anos 60, se tornou refúgio hippie, onde o rock psicadélico europeu encontrou a espiritualidade indiana e canábis em abundância. Nos anos 90, o Goa-trance - e a ketamina - puseram a região no circuito global dos festivais de música eletrónica, com um influxo crescente de backpackers israelitas a realizar o tarmila’ut, viagem/rito de passagem à vida civil após cumprir o serviço militar. Os locais procurados por veteranes à procura de descontrair, após perpetrarem crimes de guerra ao serviço do IDF, constituíram aquilo que ficou conhecido como a “Rota do Hummus”. Menos documentados mas expectáveis são os efeitos sociais e psicológicos nefastos desta rota: o caos em várias pequenas povoações indianas, o surgimento de colonatos vedados à população local, e em alguns casos, o culminar de psicoses graves entre veteranes. A mesma angústia e influência militarista pode ser encontrada no psytrance israelita (que detém grande influência scene), com nomes de artistas e álbuns que aludem à guerra, à conquista e exasperação, como “Expression of Rage”, “Psycho Sonic”, “Deeply Disturbed”, “Becoming Insane”, “Smashing the Opponent” ou “Conquering the Israeli Desert”.

Como observa Darren Sangita, o psytrance israelita está profundamente ligado ao sionismo, ao trauma militar, à identidade dos colonos e à ocupação. Mesmo que as pessoas se digam apolíticas, as estruturas que incorporam reproduzem lógicas de limpeza étnica e apartheid.

Portugal: sol, festivais de Verão, psytrance e crimes de guerra?

Desde o 7 de outubro, vem-se dando mais atenção à presença israelita na scene psytrance em Portugal, com algumas controvérsias a surgirem no verão de 2025. O cancelamento do Anta Gathering teve grande atenção mediática, depois do Comité de Solidariedade com a Palestina denunciar um dos principais organizadores, um reservista que regressou a Israel em outubro de 2023. O Boom Festival, gigante incontornável na cena global do psytrance, também foi criticado por só usar as suas redes sociais para divulgar platitudes PLUR, apesar de muitos dos seus headliners virem de Israel e de boa parte do seu público, por vezes envergando a bandeira israelita. O problema não está na nacionalidade dos participantes mas no silêncio de artistas e festivais com grande plataformas e influência na cena, construída às costas dos sacrifícios de todas as pessoas que participaram dos movimentos contra-culturais, artísticos e políticos, vitais para a criação dos sons e da cena de psytrance de hoje.

Em 2022, fui convidade para o Boom, para falar sobre a mina e a minha impressão da cultura rave queer num dos painéis do Palco Liminal. Nesse ano, mais de 80% dxs DJs e outres artistas convidades eram homens. Painéis é onde normalmente se pode esperar encontrar a maioria das mulheres, pessoas queer e/ou BIPOC. Cerca de um ano mais tarde, depois de uma reunião com a organização do Boom - para discutir o manifesto para a edição de 2023, amplamente criticado por estar repleto de clichês transfóbicos e noções liberais sobre a liberdade de expressão -, constatei que pouco tinha mudado. Nessa edição, Chiara Baldini, responsável pela curadoria do Palco Liminal,  despediu-se com elegância, oferecendo uma lição sobre as raízes contraculturais da cultura hippie e traçando o seu percurso histórico, do idealismo antiguerra dos anos 60 até desembocar nos atuais formatos de escapismo espiritual. Na Índia, os hippies formaram colonatos brancos sob o ideal de “espiritualismo universal”, que convenientemente ignora raça, fronteiras, classe e realidades locais. Operando sob o lema “somos um”, é fácil esquecer as adversidades e desigualdades materiais das comunidades e/ou locais que os acolheram, seja na Índia ou em Portugal.

Apesar disto, não vou negar que me diverti com amigues no Boom. Atraem-me genuinamente algumas das sonoridades do espectro do psytrance, desde o rumbling rápido e texturas orgânicas até ao psymbient meditativo e o explorar instrumentos, cânticos e notações musicais não-ocidentais. E valorizo o esforço de incorporar ideais holísticos de viver ao ar livre, consciência ecológica, práticas somáticas e dança extática. Percebi como a redução dos danos focada em psicadélicos se estendeu à curadoria e infraestrutura do festival, como se procurou uma intensificação gradual no início do festival e uma aterragem suave à medida que o festival chegava ao fim, incluindo horas de descanso no pico do sol e promovendo um entusiasmo em torno da natureza e da ciência. O esvaziamento deste ethos, muitas vezes ofuscado por uma estética extravagante ou vulgar, tem que ver com o desejo de comercialização de algo com o poder de mover milhares de pessoas e capital. Ao longo do percurso, conheci pessoas que cultivam uma genuína abertura psicadélica enquanto experimentação híbrida, sonoridades e identidades porosas. 

A minha esperança, por vezes naïve, tem sido a de expandir essa abertura. Com Sasha, fundei no Planeta Manas a ins3kt Ræve, para explorar sons além dos limites do psytrance, viajando do dub ao techno, do ambient ao bass, e imaginar diferentes perspectivas e percepções sonoras. Como será que um insecto perceciona o som debaixo de terra? Qual é a experiência sensorial das vibrações que atravessam o corpo queratinoso? Raízes as secar, mandíbulas a clicar, gotas de chuva a cair na poça - tudo sob diferentes perspectivas temporais e dimensionais. Poder habitar este imaginário sensorial é uma força motriz excitante. Queers e BIPOC raramente são acolhides em grandes festivais, e a indústria do psytrance também sofre desse mal. Ao criarmos esta Ræve, quisemos explorar o psicadelismo enquanto prática de permeabilidade: permitindo que o som, a política e as diferentes percepções se refratem através de nós. Acolher essa noção de que somos todes diferentes também pode ser unificadora.