Jornal Q2 - Inês Coutinho entrevista Dois Punks e Um Bolo de Bolacha (Histórias do DIY)

Jornal Q2 - Inês Coutinho entrevista Dois Punks e Um Bolo de Bolacha

23.01.2026
Jornal Q2 - Inês Coutinho entrevista Dois Punks e Um Bolo de Bolacha (Histórias do DIY)

Nos anos 90, ser punk em Portugal era mais resistência cultural ou pura teimosia?

Pode-se dizer que era  resistência cultural com uma boa dose de teimosia funcional. Nos anos 90 em Portugal não havia apenas um estilo musical ou visual, ser punk implicava remar contra a corrente num país ainda recente na democracia e muito marcado por uma cultura conservadora. O acesso a discos era limitado, os concertos eram raros e muitas vezes improvisados (garagens, associações recreativas, colectividades). Ser punk era construir uma cultura própria e questionar as normas e quebrar as regras do “jogo”.

A cena DIY  portuguesa dessa altura parecia uma mistura de fanzines, concertos improvisados e muita fita cola. Podem contar-nos um par de memórias que retrate esse desejo de fazer acontecer sem meios?

A  cena DIY era uma necessidade não havia dinheiro, nem apoios para nada. A vontade era muita e o dinheiro era muito pouco, forravam se garagens com caixas ovos de cartão muitas vezes pedidas aos vizinhos dos nossos pais. Quem queria organizar concertos tinha de desencantar espaços culturais para o fazer como  a Casa Ocupada (na praça de Espanha), na academia de Linda-a-Velha, nos Alunos da Apollo, Caixa Económica Operária, Voz do Operário  o Jonny Guitar e o Ritz Club entre outros espaços alternativos ou escolas secundárias como António Arroio, Padre António Vieira ou então em garagens privadas. Andávamos a colar cartazes pelo bairro alto a divulgar concertos e algumas manifestações anti-fascistas e anti-touradas. Era uma desorganização de pessoas pelo amor à música e das nossas ideologias de vida, por isso o DIY tinha muita força. 

Vasco: tinha umas colunas JBL de uns míseros 150 ou 200w e faziam tudo, punk, drum, techno…foi até rebentarem de cansaço.

O Vasco foi roadie dos Da Weasel — conta-nos lá uma história de bastidores que ainda te faz rir (ou corar) até hoje.

As melhores histórias não as posso contar, para não ferir os visados, mas era rock’n’roll no seu estado puro. Uma vez vínhamos de Paris de um concerto no Olympia, eu tinha trazido uns comprimidos de efedra para não adormecer, metemos os 3 que íamos na carrinha de backline. Ao chegar ao País Basco, pergunto-lhes se estavam a sentir e eles dizem que não. Passado uns minutos no meio de um nevão absurdo, olho para eles e estão os dois a morder o tablier da carrinha. Afinal eram bem fortes…foram proibidos entretanto, escusam de procurar.

Como é que as cenas punk e hip-hop se cruzavam nos anos 90? Havia mesmo uma rivalidade ou era tudo parte da mesma luta contra o sistema hegemónico? E a electrónica, que papel tinha aí no meio - na vossa óptica?

Nos anos 90 em Portugal (e na Europa em geral), os mundos punk, hardcore, hip-hop e electrónica conviviam de forma bem complexa, nem sempre linear, mas havia pontos comuns fortes. Ambos eram movimentos de resistência cultural e críticos das desigualdades sociais. Os espaços alternativos tinham concertos de hardcore e concertos  de hip-hop. Por exemplo, em Lisboa, alguns centros culturais e associações recebiam concertos de ambos, mas havia rivalidade. O punk via o hip-hop como “mais comercial” (mesmo o mais underground) e alguns MCs viam o punk como demasiado radical ou antiquado.Mas, quando a luta era contra o sistema, havia mais coisas que os uniam do que os separavam. A cena electrónica rave alternativa apareceu nos finais dos anos 90 com os Total Resistence, um grupo de várias crews com muito ingleses, franceses e alemães que invadiu Portugal com carrinhas e sistemas de som e faziam festas ilegais no meio de Sintra, na Costa da Caparica ou um fim de ano em Torres Vedras que ficou na memória de quem se lembra…Trouxeram um espírito traveller que não conhecíamos, era uma liberdade inesperada, sem amarras a nada, sem impostos, sem governo, sem Deus. Muitas dessas festas tiveram também concertos punk no início da noite. Spiral Tribe is the shit, google it. 

Hoje fala-se muito em “independência artística”, mas vocês viveram o DIY quando ainda não era um hashtag. O que é que acham que se perdeu (ou ganhou) com a internet e as redes sociais?

Ganhou-se exposição, hoje em dia temos acesso muito mais rápido às coisas devido à internet. Antigamente usava-se o boca a boca ou espalhava-se pela cidade cartazes ou fanzines e flyers. Perdeu talvez em alguns casos  a essência e a identidade.

Se pudessem reviver uma noite, um gig ou um momento dessa era, qual seria e porquê?

Sérgio: Eu adorava reviver o meu 1º concerto de punk hardcore na Escola Secundária de Linda-a-Velha. Eu tinha 13 anos e fui ver Pé de Cabra, na realidade, foi onde fiquei apaixonado por todo o movimento punk, são daquelas sensações que não se explicam, senti que estava em casa.

Vasco: 77 uma banda com membros dos Tédio Bois mas com o Paulo Eno a cantar. O concerto foi algures no Barreiro... ou terá sido na Moita? Só Deus sabe e eu sou Ateu, mas acabei, tal como o vocalista, semi nu e a vomitar encostado ao carro…

Havia uma sensação de comunidade forte na cena punk dos 90s, mas também muita fricção entre bandas, egos e ideologias. Como é que se geriam essas tensões sem redes sociais para lavar roupa suja?

Havia algumas tensões  mas eram todas resolvidas ao vivo e a cores, antes, durante e depois dos concertos.

Lembram-se de rádios pirata e fanzines específicas na altura?

Rádios não nos lembramos de nenhuma, existiram muitas mas acabaram nos finais dos anos 80 com uma lei anti-rádio do governo do Cavaco, mas fanzines sim. Havia a Erva daninha, Positive Youth, Fast Growing e também havia algumas zines ligadas a bandas como os X-acto ou os Subcaos. Outras como Profane Existance ou Maximum RnR mais politizadas. Havia muitas, de temas variados, talvez a mais conhecida era “A Bíblia” mais vendida que a outra, do mítico Tiago Gomes, antigo vocalista  punk convertido em poeta, procurem por aí que ele faz uns concertos de spoken word bem bacanos com músicos como o Tó Trips.

Se tivessem de explicar a um miúdo de 20 anos o que era “ser DIY nos 90s em Portugal”, que três objetos levariam para ilustrar a época

Vasco: Um pau, discos de vinil às costas e Visadron.

Sérgio : Mortalhas, Walkman, Skate e Siga a Marinha!