Jornal Q2 - Fiscalizem o pingo doce como se fosse uma associação cultural por Catarina Teixeira

Terça-feira, seis da tarde, Pingo Doce da Avenida Duque de Ávila, em Lisboa. A loja está cheia. De repente, sem que nada o fizesse prever, vinte agentes da polícia de intervenção entram armados com bastões, viseiras, coletes à prova de balas, joelheiras, cotoveleiras, capacetes, e sem placa de identificação.
“Nem mais uma fatia de fiambre!”, exclamam os que se dirigem ao talho. “Largue as maçãs!”, escuta Felismina na secção dos frescos. “Vamos desocupar esta zona, é para varrer tudo”, ouve Carlos, após perguntar o que se estava a passar.
Em menos de 2 minutos, todos os clientes da loja estão presos entre os congelados e os lacticínios.
Na sala de pausas, a gerente da loja fala com o responsável pela operação policial, pedindo explicações. “Viemos aqui ver se está tudo em conforme”, respondiam enquanto revistavam tudo.
“Olhe lá, eu estou aqui com um gelado na mão que vai derreter”, insistia Glória, apelando ao bom senso dos agentes, antes de ser atingida com um bastão. “Pouco barulho, ó velha!”, exclamava, entre risos, um polícia não identificado.
A loja foi esvaziada entre ameaças e episódios de violência física e verbal. A circulação na Avenida Duque de Ávila foi cortada com cordões policiais. Naquele dia, já não houve mais compras para ninguém. Nada disto aconteceu em nenhuma loja do Pingo Doce. Aliás, nada disto aconteceu em nenhum espaço semelhante a uma loja do Pingo Doce.
Mas tudo isto aconteceu, por várias vezes, no Planeta Manas, associação cultural sem fins lucrativos, no Prior Velho. Este tipo de comportamento é cada vez mais comum em associações semelhantes à nossa. E nós por cá vamos continuando, sem saber bem como: vamos adoptando todas as medidas de segurança, pedidas e não pedidas, vamos procurando conhecer melhor a lei e os procedimentos policiais, vamos inventando medidas para a prevenção destas situações, vamos fugindo, vamos mudando de espaço e, por fim, acabamos por ter de fechar portas.
Porquê? Será por realmente não estarmos “em conforme” com os trâmites legais?
Desde logo, e voltando ao Pingo Doce, podemos assegurar, com relativa confiança, que estamos mais “em conforme” com a lei do que esta cadeia de supermercados – muito mais do que nos poderíamos orgulhar enquanto ravers.
Pensemos assim: toda a situação descrita acima seria justa, proporcional e aceitável se os polícias saíssem daquela loja do Pingo Doce com provas de horários de trabalho ilegais, irregularidades nas pausas dos trabalhadores, repressão das mães trabalhadoras que tentam exercer o direito a horários flexíveis para acompanhar os filhos, e discriminações aos trabalhadores sindicalizados? Provavelmente não – e tudo isto acontece em inúmeras lojas do Pingo Doce.
Já quanto ao entretanto encerrado Planeta Manas, Deus o tenha, nas diversas invasões – passaram a pente fino os livros de registo, todas as licenças, os extintores, e até as sempre traiçoeiras tomadas eléctricas – a única coisa que encontraram foi a periclitante pen de uma DJ, que tocava sem ter ali à mão o comprovativo de aquisição de um dos discos (que existia e foi mostrado à polícia).
Então não deve ser disso.
As dúvidas mantêm-se, visto que não fomos dignificadas com uma única justificação, para nenhuma das invasões policiais, até hoje.
O que levou esta esquadra de Loures a concentrar tantos esforços nesta simpática associação cultural, dividida entre conseguir pagar a renda e tentar garantir preços justos a todos os presentes, de quem trabalhava a quem frequentava, sem tirar dali um cêntimo de lucro? E o que justifica a impunidade dos Pingos Doces, com lojas em cada recanto deste país e lucros milionários, construídos entre ilegalidades, às costas de mais de 30 mil trabalhadores exaustos e mal pagos?
Talvez justamente isso. Talvez possa ser mesmo assim de simples: estávamos só ali a fazer a nossa cena.
Numa época histórica em que nos vendem, dos supermercados à cultura, a ausência de alternativa, onde tudo nos é apresentado como se resultante de uma decisão divina de indiscutível sabedoria e racionalidade, fazer a nossa cena representa um enorme risco – económico, social, civilizacional!
E além do risco que assumimos para nós, ainda havia o risco de contágio: e se, de um dia para o outro, todos decidíssemos que temos uma palavra a dizer no rumo dos acontecimentos, rejeitássemos este mundo pré-fabricado que nos apresentam, e reclamássemos a liberdade de participar, construir, transformar em realidade os espaços que imaginamos?
Além de assustador, para dizer o mínimo, que trabalheira! Não será mais eficiente, pergunto, deixar as decisões sobre o que produzir e vender, em que quantidades, quando, como, onde e de que forma, nas mãos do menor número de pessoas possível, evitando debates e discussões intermináveis entre vontades e desejos distintos?
Eles no fim até nos dão a liberdade de escolher o que consumir!