Jornal Q2 - Catarina Teixeira entrevista Vítor Sanches (Bazofo e Dentu Zona)

Jornal Q2 - Catarina Teixeira entrevista Vítor Sanches (fundador da Bazofo e Dentu Zona)

20.01.2026
Jornal Q2 - Catarina Teixeira entrevista Vítor Sanches (Bazofo e Dentu Zona)

Como surgiu a ideia para a Dentu Zona?

A Dentu Zona dá lugar a pessoas para estarem numa plataforma no sentido de entreajuda. Essa plataforma faz cine-clube, feiras, exposições… cuida também, que é uma parte bué importante. Este “cuida” é uma auto-reflexão das coisas que aqui se passam na zona. Também é um canal que passa informação para um público fiel, que sabe mais ou menos o contexto, e é um colectivo de outros artistas que também fazem a coisa acontecer. O mote da Dentu Zona é da zona, p’rá zona, no sentido de sensibilizar e curar a população local através da cultura. Essa é a importância da Dentu Zona. Tipo, olhar para o pessoal da zona, porque eles é que são… são as pessoas principais, ‘tás a ver? 

A ideia é as pessoas não terem de sair do seu bairro para ir aceder à cultura noutro sítio, não é?

É, é uma questão mesmo de desconstruir a cena colona, que obviamente é uma das cenas que ainda propaga aqui dentro do bairro. É descolonizar a tua mente no sentido de saber que também és importante e também tens valor e também tens direito à cultura e ao lazer. 

E depois de surgir a ideia, quais os primeiros passos que precisaram de dar para construir esta comunidade?

É tudo uma questão de… apoderar o que é teu, né? Então o jardim é nosso, né? Então as ruas são nossas, né? As ruas somos nós, né? Começámos a concentrar-nos mais na cultura, então foi através dos cine-clubes – eu faço um cine-clube negro –, foi através da presença dos livros à distância de um braço… várias coisas, mas têm que ter uma consistência, né? Temos de fazer algo que seja regular, que fique tipo “missa”, e depois o pessoal já identifica esse lugar como um lugar de cura, onde as pessoas se encontram para essa tal cura. É isso que eu tento proporcionar, e a missão e a identidade da Dentu Zona são essas: é fazer eventos locais para a comunidade, e para a comunidade participar. Eu faço jogos de tabuleiro, campeonatos… são várias coisas que um gajo tenta desenvolver para engajar a comunidade.

Costumas referir muito o espírito de entreajuda e a riqueza cultural que encontras no bairro. O que é que estimula essas duas características que encontras com tanta força na Cova da Moura? 

Por exemplo, a necessidade, né? A fome, né? São grandes impulsionadores da condição de “‘tamos no mesmo aquário”, né? Aqui nós somos todos caranguejos, toda a gente ‘tá a procurar sair desse espaço, porque estar a viver na zona e gostar da zona são duas cenas completamente diferentes. Então viver no bairro é uma cena bué… é buéda duro.

É um sítio onde fica assim um bocado evidente que ninguém se vai safar sozinho, não é?

Sim, man, é super duro, super duro… e depois chegas a uma certa idade, aos quarenta ou cinquenta, e começas a bater mal porque não conseguiste nada na tua vida, e acumula com os outros problemas que obviamente também tiveste ao longo da vida… então para te manteres sano é bué difícil.

E desses sentimentos também vem a necessidade de participar em coisas e fazer coisas e estar em conjunto a fazer coisas e… procurar um refúgio – de ir jogar jogos de tabuleiro, a ver um filme…?

Sim, eu acho que uma das cenas é o pessoal não ter a oportunidade de fazer parte da cultura… e eu acho que aqui têm isso. Têm acesso, está na zona deles, e também fazem parte do movimento. Isso também é uma ganda diferença, porque o meu people não vai ver cultura no Gulbenkian ou qualquer outra instituição, mas, se a cultura é trazida cá prá zona… o pessoal começa a apreciar dentro do tempo deles, né? Acho que todas as vezes que eu fiz aí uma exposição, o pessoal passava de carro, via, passava de bicicleta, via… tinha outras formas de ver que também são válidas, mas que numa instituição não é válido. Eu tento sempre fazer na rua. Se a cultura não existe, tem de ser plantada em algum sítio. E eu não estou à espera que me comprem a peça… eu quero é que o pessoal aprenda a apreciar. Sabendo apreciar, amanhã vais comprar. Pode demorar dez anos, mas é sobre isso, né? É sobre semear e depois colher, né?

E também há uma grande diferença entre pegar numa exposição da Gulbenkian e levá-la lá, ou serem mesmo coisas feitas lá, por pessoas de lá, até na própria ligação das pessoas com a cultura – saber que é arte feita por pessoas mais parecidas com elas, com contextos mais parecidos com os delas…

Ya, eu concordo. Já fiz várias exposições e tem sido uma cena muito boa. Uma delas foi do Lukanu [Mpasi], foi muito forte a exposição dele, e me apercebi que a aderência foi completamente diferente do que naquela que ele teve lá na Gulbenkian, ‘tás a ver? Para mim foi importante chegar à comunidade. Obviamente aqui a zona é uma plataforma negra e, sabendo que há poucas ou nenhuma plataforma negra no mainstream, a cena especial aqui é sempre dar protagonismo às pessoas negras. Eu acho que é bem importante ter esse espaço que seja especial para essas pessoas.

A Dentu Zona também tem um atelier de serigrafia, para as pessoas também fazerem arte, produzirem… como funciona?

 A parte da serigrafia é uma parte bué importante da Dentu Zona, porque a serigrafia serve a marca de roupa que é gerida por mim, que é a Bazofo, e depois também faz trabalhos para fora, para outros clientes ou instituições, e também faço workshops para pessoas que querem aprender a fazer arte de serigrafia, também faço a serigrafia nas escolas… e aí trabalho com a língua de Cabo Verde, que é bué importante, porque a maioria das escolas da periferia são frequentadas por pessoas negras e uma das cenas que eu posso levar lá é o crioulo de Cabo Verde, para as pessoas se expressarem na língua-mãe, na língua que sentem mais afecto. Um exemplo é “minha querida” ou “nha cretcheu”... é completamente diferente.

O apagamento destas línguas também acaba por ser apagamento cultural, não é? Falar crioulo também é uma certa resistência cultural?

Super. Justamente desses lados aqui, onde a resistência anti-racista foi sempre forte e resistência também contra a direita, no sentido de ser um bairro com as condições que tem, as condições a que tem estado a sobreviver… eu vim juntar-me à luta que muitas outras pessoas já faziam e já fizeram aqui da zona, que são os restaurantes, que são as pessoas que são agentes sociais… eu não sou ninguém, eu sou apenas mais um. E se eu conseguir acrescentar, essa é a minha cena, acrescentar. Se eu consigo acrescentar, é uma boa cena.

Quais são os maiores desafios para manter a Dentu Zona a funcionar?

Desafios é mesmo com a comunidade em si, tem nuances, eu tenho que perceber bem essas nuances e saber como estar sempre em frequência… uma das cenas é em novas gerações, como é que tu vais adaptar-te a isso, para ficar sempre apelativo. Tem uma faixa etária aí que eu não consigo muito engajar, mas tem que persistir, né? Depois há aquelas nuances que é bué difícil, que é quando uma criança não quer ir para a escola e não pode trabalhar, então fica aí nesse espaço assim… 

Tentar fazer a malta que se está a desinteressar do mundo… interessar-se ali em qualquer coisa?

Sim! Para mim é bué importante terem ferramentas de trabalho. Uma das cenas que a Dentu Zona faz quando eu estou a fazer serigrafia para fora é empregar malta que venha trabalhar comigo, e depois a gente tem um rendimento para as cenas deles de emergência… se não é um calçado, é uma licença de mota, se não é uma licença de mota é para comprar algo porque estão num projeto qualquer… se o dinheiro vier no meu caminho, tenho sempre para onde direcionar. Tipo, hoje à noite vou fazer DJing, vou levar dois DJs aqui da zona, sabes? Então a cena é assim, a Dentu Zona trabalha como tal, a cena é não deixar o dinheiro escapar e empoderar as pessoas. É bué difícil, mas pronto… trabalha-se, né?

Que conselhos deixarias a quem quiser começar um projeto deste género no seu bairro?

Eu acho que o conselho é assim: compromisso é compromisso, e as vitórias são poucas. Têm mesmo de pensar antes de fazer, mas é necessário, é super necessário… 

E no fim das dificuldades todas, sentes sempre que compensa?

Tem sempre o cherry on top que é a experiência que as pessoas levam, é a experiência que as pessoas têm, e isso para mim vale tudo, vale mais do que qualquer coisa. Para tu te lembrares de uma cena, aquilo tem de ser uma memória boa, uma cena afectiva, um amor afetivo à zona… e isso para mim é o cherry on top. E quando tu vês na televisão uma cena contra a zona, tu pensas “ah, como é que ‘tá o Vitor, como é que ‘tá o João”, percebes? E a minha cena é essa, é empoderar o pessoal em todos os sentidos para se protegerem… mas isso tudo é um movimento político, não deixa de ser um movimento político… mas é só pela cultura, ‘tás a perceber?