Jornal Q2 - Cadê Elas - Catarina Teixeira entrevista DIDI (afrontosas)

Nascido para investigar a história da negritude cuir (queer) em Portugal, o colectivo Afrontosas olhava para o período da ditadura quando se deparou com Virgínia Quaresma. Esta mulher mestiça, nascida em 1882 em Elvas, foi a primeira repórter moderna portuguesa, “e era sapatona, sapatona, sapatona! Desde sempre, sempre se colocou como, e não tinha vergonha”, conta DIDI, das Afrontosas.
Partindo deste exemplo, as Afrontosas concluíram que tinha de haver mais histórias como esta — e decidiram ir à procura delas para as contar.Recorreram aos arquivos, registos e a bases de documentos legais, como a Torre do Tombo e o Museu de Lisboa, o Asilo da Mitra e os hospitais psiquiátricos Júlio de Matos e Miguel Bombarda, mas também à historiografia LGBT em Portugal, onde o recorte racial nunca existiu: “ninguém pensou nisso, na importância disso, na importância também dessas vivências para o contexto local”, relata DIDI, referindo-se ao “grande boom da guerra colonial”, e ao aumento dos fluxos de pessoas entre África e Portugal a partir daí.
Assim, como esperado, o colectivo Afrontosas encontrou registos de pessoas negras cuir tanto no Asilo da Mitra como no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, dois dos destinos para “tudo o que era desviante”, expõe DIDI. Como a homossexualidade era considerada uma infracção penal, o fascismo português perseguia-a através de duas formas de controlo social: como crime ou como doença.
A Mitra abriu em 1933, na ascensão do fascismo, e servia para a PSP depositar pessoas retiradas da via pública, sem ter de as acusar de qualquer crime, com a justificação de “limpar moralmente” Lisboa – pobres, doentes, deficientes, dementes, inválidos, pedintes, prostitutas, aleijados, homossexuais… no fundo, todos os “indesejáveis”. Mais de 20 mil adultos e crianças estiveram presas na Mitra, e cerca de um terço ficaram lá presas até à morte.
Nos anos 1950, a Mitra passou a receber sobretudo doentes considerados “incuráveis” pelos hospitais psiquiátricos Júlio de Matos e Miguel Bombarda, onde ficavam as pessoas consideradas possíveis de “tratar” – como no conhecido caso de Valentim de Barros, o bailarino que tentaram “curar” da chamada “inversão sexual” (termo médico para homossexualidade) durante quase 50 anos, entre 1939 e 1986, até acabar por morrer no hospital psiquiátrico.
Valentim está longe de ter sido caso único. E as Afrontosas também foram à procura, nos casos de pessoas negras e cuir com o mesmo fim, das suas histórias completas, vivências e contextos, da denúncia à detenção, da prisão ou institucionalização até à morte.
Durante o fascismo, qualquer demonstração pública de afecto, desde um beijo até andar de mãos dadas na rua, era proibida e punida com multa. Por isso, os registos criminais da época contêm muitas provas fotográficas deste tipo de “transgressão”. As Afrontosas encontraram exemplos nos quais se comprovava a existência de “afectividades criminosas” entre dois homens a partir de fotografias deles sentados lado a lado – e isto era suficiente para os prender.
Situações como esta multiplicam-se por toda a cidade de Lisboa. Por isso, o colectivo mapeou os locais onde estas pessoas se encontravam, conheciam e flertavam, da Avenida da Liberdade a vários cafés de Lisboa. Porém, era nos urinóis e casas de banho públicas que a maior parte delas eram apanhadas e presas, esclarece DIDI: “a base da sexualidade das pessoas naquela época era condicionada dentro dessa obscuridade, de ir aos urinóis, às casas de banhos, para o engate, e a gente tem muitos registos sobre isso: quase sempre essas pessoas eram apanhadas porque estavam nesse campo”. O grupo também percebeu que a homossexualidade era prática comum no campo militar, mas “era obviamente tabu, e isso não saía” a público.
Era tabu e, para muitas destas pessoas, mantém-se assim. As Afrontosas tentaram contactar familiares de algumas das pessoas negras cuir que investigaram e rapidamente perceberam como ainda é “muito complexo falar sobre isso até hoje”, explica DIDI. E também por isso sentiram o dever de preservar as histórias destas pessoas sem as expor.
Assim, optaram por partilhar os resultados desta investigação através da afrofabulação, uma abordagem artística na qual as Afrontosas e outros artistas locais dão corpo às histórias investigadas, contando-as da sua perspectiva para as preservar, porque “podíamos ser nós”, reflecte DIDI.
Esta exposição artística esteve em exposição no Espaço Santa Catarina, em Lisboa, entre 8 e 22 de outubro, e os resultados estão disponíveis no site afrontosas.pt/cade-elas desde novembro.
Nestes resultados, encontramos também as reflexões do colectivo sobre as histórias recolhidas e afrofabuladas. DIDI conta como coube ao Colectivo reflectir sobre a linguagem estereotipada encontrada nos registos antigos, particularmente sobre a cor da pele, e as suas semelhanças com a usada actualmente: “acho que até hoje a gente sofre, num contexto espacial, por essas punições, por essas punições taxativas”.
As Afrontosas também tiram conclusões sobre a homofobia que, além de ser um produto interno geral muito forte na sociedade portuguesa, nas comunidades negras é “forte ao quadrado”: “por toda a estrutura social nossa representativa ter sido alicerçada por figurações, por corporeidades, por estruturas sociais hegemónicas heteronormativas brancas cisgénero… é... é complexo você trabalhar outras historiedades, outras historiografias de outras pessoas. Então acho que pessoas negras durante muito tempo ficaram assim ao léu por (...) não estarem próximas umas das outras, não se verem dentro de um contexto sócio-afectivo e de sociabilidade na comunidade LGBTQIAP+”, expõe DIDI, apontando como as acções colectivas das Afrontosas, de The Blacker The Berry, ou o Black Pride têm proporcionado “um grande encontro de pessoas, de vozes, de afectividades p’ra que a gente possa dar sentido às nossas existências – e não ter medo de sermos o que nós somos, com as nossas formas, com a nossa pele, com a nossa história, com a nossa outra forma de trabalhar e pensar música cuir ou outras coisas, outros sons, outras formas de se vestir… e outras histórias também. É sobre isso!”
Assim, DIDI não tem dúvidas: “o Cadê Elas? é uma coisa que não acaba aqui, na verdade é um ponto de início, de resgatar essas histórias (...) p’ra saber quem eram essas pessoas, onde estão essas pessoas, por que essas pessoas estão aqui…” e para “trabalhar a exclamação de que a gente ‘tá aqui e a gente ‘tá viva e a gente resiste e a gente existe e a gente existiu p’ra história desse país. É isso!”